29 abril 2010

Esporte na Universidade

No ano passado, o DCE foi para o CONUNE (Congresso Nacional da UNE) e levamos conosco uma tese para o Movimento Estudantil. Esntre os mais diversos temas, estava a questão do esporte na Universidade escrito pela Coordenação de Esportes na qual eu fazia parte e que nesse ano coordeno!
Já que a coordenação resolvou retomar alguns pontos, estou postando o texto que produzimos naquela época. Leiam e opinem, o dialógo é sempre importante para a construção de um pensamento coletivo!




A “(des) construção” do Esporte na Sociedade e na Universidade



Há muito se fala em benefícios que a prática desportiva tem para a saúde das pessoas e da possibilidade que este tem de resgatar estas da vida “comum”, dando oportunidades e educando para uma vida em coletivo, além da força de vontade, da concentração, e outros aspectos que o esporte pode ressaltar. A mídia hegemônica e a ciência ligada ao esporte tendem a ligar automaticamente a área desportiva a estas “tendências”. Na Universidade este quadro não é diferente: o que vemos é a reprodução do modelo de esporte que não leva em consideração a realidade dos sujeitos envolvidos nas atividades e que apenas adequa-se à classificação normalmente escolhida para os atletas ou praticantes dos esportes: a classificação baseada unicamente no rendimento. O erro em não pontuar as características sócio-econômicas de cada praticante esconde uma realidade ainda mais nefasta: a de desvincular o Esporte da política, esvaziando este assunto de sua natureza também alienadora, se enfrentada desta maneira, assim como o são outras áreas. Ajudar a reproduzir falsas esperanças “olímpicas” na população majoritária, encontrada na situação de pobreza, vem a ser uma atitude política a serviço de um projeto que conserva os moldes da sociedade atual.

A Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC atualmente além de passar pelo problema do curso de Ed. Física ter grande parte de sua graduação voltada para a construção meramente técnica de profissionais dessa área, ainda sofre de uma carência visível de espaços para a prática desportiva universitária em seu Centro de Desportos - CDS. A UFSC, assim como tantas outras Universidades Federais espalhadas pelo Brasil, mostra os sintomas do trato que é dado ao esporte em nosso país: o de mero voluntarismo por parte do acadêmico, onde a prática esportiva não conota parte fundamental do desenvolvimento e formação acadêmica. O resultado deste fator é uma sensível falta de políticas para o esporte dentro da Universidade, um descaso que além de expressar ignorância a respeito da totalidade de uma formação universitária, ainda denuncia a cômoda posição em que se encontram as “administrações centrais” da maior Universidade de Santa Catarina. O cenário Nacional fora destas instituições superiores é o mesmo: poucas políticas de incentivo ao esporte (mesmo quando se fala no esporte de alto rendimento) que dêem manutenção à vida de atletas, e muita “comercialização” do esporte enquanto sonho “olímpico”, seguindo os moldes do Comitê Olímpico Internacional.

A tarefa de fomentar um pensamento crítico e político através, e não apesar do esporte, é uma tarefa árdua, assim como se faz trabalhosa a construção de uma nova cultura sobre o esporte para a os acadêmicos da Universidade, mas o Movimento Estudantil articulado com suas instâncias de representação, como o DCE, os DA´s e os CA´s não podem se esquivar desta função. O Esporte e as práticas de lazer que envolvam arte e cultura podem e devem ser valorizados em todas as instituições de ensino superior de nosso país, criando espaços de interlocução com a Ciência e a Tecnologia, só assim poderemos ver algum sentido na palavra Universidade e todas as suas nuances.

O ultimo paragrafo não foi para a Tese:

Defendemos que o esporte é uma das práticas importantes para a formação humana, atingindo não só a saúde física de uma pessoa, mas também sua saúde mental e social. É essencial que exista nas universidades, políticas de incentivo ao esporte em todos os cursos, pois a universidade não deve servir apenas para formação de profissionais ao mercado de trabalho.

22 abril 2010

Paulo Freire e sua relevância ao ME

Como o pessoal que acessa o blog deve saber, eu milito no Movimento Estudantil. Nessa semana avaliando e reavaliando algumas coisas da organização onde atuo (Coletivo 21 de Junho) acabei por reler Paulo Freire e fiz algumas anotações que gostaria de compartilhar.

Paulo Freire além de pedagogo, era um militante revolucionário e sonhador de um mundo melhor. Digo sonhador pois suas obras são carregadas de amor e esperança na humanidade. Não é diferente com sua teoria de aprendizagem e comunicação. No sub-tópico do seu livro "Pedagogia do Oprimido" entitulado "A Teoria da Ação Dialógica e suas características" Freire aponta algumas diretrizes necessárias para conquistar ou chegar à práxis através do diálogo.
  • O amor ao mundo e a humanidade como um ato de criação e recriação em uma relação dialética;
  • A humildade, como qualidade compatível e essencial ao diálogo;
  • A fé, como algo que se deve instaurar antes mesmo que o diálogo aconteça, pois o homem precisa ter fé no próprio homem. Não se trata aqui de um sentimento que fica no plano metafísico, mas de um fundamento que creia no poder de transformação da realidade. Precisamos primeiro acreditar no que fazemos;
  • A esperança, que se caracteriza pela espera de algo que se luta;
  • A confiança, como conseqüência óbvia do que se acredita enquanto se luta;
  • A criticidade, que percebe a realidade como conflituosa, e inserida num contexto histórico que é dinâmico.
Essas características estão inseridas na discussão de uma pedagogia voltada para a libertação, que eu tive em alguns momentos do meu curso e que contêm alguns outros autores além de Paulo Freire, mas que no momento não tenho aqui quem são. A obra de Paulo Freire cabe muito bem ao ME na Universidade, principalmente sua teoria da ação dialógica, com as características: co-laboração, unir para a libertação, organização e síntese cultural.


Co-laboração:
Sujeitos para transformação do mundo em co-laboração.
Isso não significa que “no quefazer dialógico,
não há lugar para a liderança revolucionária.

A liderança em questão, não é proprietária dos demais, como comandante. “Se assim fosse, esta liderança seria como o messianismo salvador das elites dominadoras, ainda que, no seu caso, estivessem tentando a 'salvação' das massas populares” pg.96

Assim a relação entre liderança e massas se da com base no diálogo, sem domínio, sem imposição, mas de forma que as massas sejam sujeitos de transformação também. Essa forma de diálogo também é caracterizada pela humildade da liderança para com o estudante (no nosso caso). Partindo da realidade deste sujeito começa-se o diálogo. Assim deve ser para a conquista de uma consciência revolucionário, uma consciência crítica e não uma consciência moldada, ingênua, seguidora de princípios que nem o sujeito compreende.

Unir para a libertação:

A união aqui, é a união dos oprimidos. União essa como classe, como consciência de classe. Para Paulo Freire essa união no processo revolucionário deve ser uma ação cultural.
“Ação cultural, cuja prática para conseguir a unidade dos oprimidos vai depender da experiência histórica e existencial que eles estejam tendo, nesta ou naquela estrutura.” p.101

Para exemplificar isso Freire faz a distinção de camponês e trabalhador da cidade. E que ambos se diferenciam do nosso caso, de estudante! O essencial, é levar em conta a conjuntura em que os sujeitos se encontram e sua história. Só entendendo a realidade em que estamos inseridos é que pode mos transforma-lá.

Organização:

Quando falo de organização entendo que só de boas intenções o movimento não funciona. Ele precisa de objetivos, disciplina, de tomada de decisões, de liderança, de tarefas a cumprir e contas a prestar. Porém isso não significa que a liderança/vanguarda deva ordenar os mobilizados, os manipulando e 'coisificando', usando palavras de Freire.

“Na teoria da ação dialógica, portanto, a organização, implicando em autoridade, não pode ser autoritária; implicando em liberdade, não pode ser licenciosa. Pelo contrário, é o momento altamente pedagógico, em que a liderança e o povo fazem juntos o aprendizado da autoridade e liberdade verdadeiras que ambos, como um só corpo, buscam instaurar, com a transformação da realidade que os mediatiza.” p.104

Síntese Cultural:

“Conhecer o mundo com o povo”. A liderança/vanguarda não leva ao estudante a resposta exata de como funciona a estrutura social que este esta inserido, ele não esta ali para ensina-lo, mas para conhecer essa realidade com ele, a partir dele. Sem cartilhas, apenas com conceitos e estudos que este tem como vanguarda, mas não como senhor da sabedoria suprema revolucionária.

“Temas geradores” - temas esses que partem da realidade do estudante (em nosso caso). Segundo Freire “A investigação dos temas geradores ou da temática significativa do povo, tendo como objetivo fundamental a captação dos seus temas básicos, só a partir de cujo o conhecimento é possível a organização do conteúdo programático para qualquer ação com ele, se instaura como ponto de partida do processo de ação, como síntese cultural.” pg.105

Freire finaliza o livro com uma frase que gostaria de citar: “Se nada ficar destas páginas, algo, pelo menos, esperamos que permaneça: nossa confiança no povo. Nossa fé nos homens e na criação de um mundo em que seja menos difícil amar.” pg.107